Paraíso Ou Terra-de-ninguém – papagaios e sabiás no gorjeio da indigestão

O Brasil era a terra do exílio; vasto presídio com que se amedrontavam os heréticos e os relapsos, todos os passíveis do morra per ello* da sombria justiça daqueles tempos. (Euclides da Cunha – Os Sertões)

* condenação à morte no exílio.

Uma vez que deus é brasileiro e que sabiá aqui canta mais bonito, esta terra, de riquezas naturais quase ilimitadas, de paisagens tão diferentes e estonteantes, de povo cordial e simpático, cativante e rebolador, pôde ser chamada Paraíso. O apelido veio desde cedo. Num dos primeiros relatos portugueses, Pero Vaz de Caminha, encantado, descreve ao rei de Portugal uma terra de riquezas infinitas habitada por pardos inocentes. A carta simboliza muito do que esta nova terra iria se transformar: das belezas; do choque da civilização frente ao novo que se prostra nu, sem cobrir suas vergonhas; das promessas de riquezas; das novas almas para serem acolhidas nos longos e aconchegantes (e sufocantes) braços da Salvação. É também símbolo da política de favores que tanto marca esta terra de “ideias fora do lugar”: lá no fim das tantas páginas, Caminha pede a el-rei que liberte do exílio seu genro.

Assim, já na carta de descobrimento, podemos ver ressaltadas as tantas contradições do processo de colonização brasileiro. Contradições estas que permeiam Terra Papagalli, peça livre-inspirada no romance homônimo-de-mesmo-nome de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, encenada pela Trupe Olho da Rua, um grupo de teatro com papel importante de resistência na baixada santista, numa das ruas da singela e bonita Cidade Tiradentes.

O espetáculo traz, com humor escrachado, muitas destas questões tão caras à nossa história, ao lançar luz a um tal de Cosme Fernandes, ou Bacharel da Cananeia, homem desconhecido de nosso passado, expulso de Portugal e exilado no Brasil, que, junto a heróis, aventureiros, hereges, loucos, ratos e doenças, compôs as grandiosas embarcações de Cabral; embarcações encenadas, magistralmente, pela Kombi Bujarrona Road – automóvel, camarim e um quase ator da Trupe. Acresce à corja de personagens, outros dois passantes, negros, que se integraram à peça: “Josefina”, que numa das conversas do final da apresentação, ouvi de alguém ser moradora de rua, cujo nome fictício foi criado na hora, como estratégia para absorvê-la no elenco, e um bêbado que ali passava, com seu saquinho de pão e o discurso de que sua família lhe esperava à porta de casa.

A rua, então, estava pronta, e todos nós participamos deste Brasil em nascimento.

Cosme Fernandes, expulso de seu país natal por “comer a rosca” da mulher que amava (rosca que Josefina distribuiu às crianças sentadas), junto com o grupo de expatriados, é largado nas praias de São Vicente – ressaltando a preocupação da Trupe em buscar e reescrever a região de origem e espaço principal de atuação. Descobre, ali, um povo diferente em tudo; ou quase: o índio, de cor diferente, hábito diferente, cultura diferente, traz incorporado em seu modo de vida aquilo que a peça diz a todo momento: “quem não come, é comido”. E nos embates que se seguem, índios e brancos vão se percebendo, se conhecendo, fitando o semblante a se digerir.

Comendo e sendo comido, Cosme Fernandes segue sonhando em retornar à Europa, reencontrar a mulher que ama, ser tido como rei, escravizar tantos índios quanto pudesse, dominar esta terra. Ali todo mundo come e é comido, e não poderia ser diferente – a rua é este espaço de conflito, de estranheza e imprevisibilidade: os atores tendo de comer o bêbado que adentrava a cena com seu saquinho de pão e também sendo comidos por ele e por Josefina, que nos roubavam a atenção com suas entradas engraçadas e reveladoras… E neste embate entre atores e atores anônimos, os dois negros se juntaram aos índios e brancos, formando a miscelânea que são as raízes desta nossa terra de sabiás e papagaios. Miscelânea confusa, encrostada de violência e vitupério. Nos mostra, a peça, o quão tortuosa é esta mistura. E não podemos deixar de rir.

Em uma das cenas, a construção da imagem do escambo, escambo torto em que o índio deve dar sua riqueza em troca de nada, ou quase, o “pardo inocente” se revolta e pede mais. Inicia-se um embate, um toma-lá-dá-cá esdrúxulo, de gesto caricatural, que só termina quando o português, nervoso, lhe promete mais: todos em volta sentimos, então, o espirro lançado à face indígena – os atores faziam questão de nos colocar como parte da tribo. O silêncio que se segue, silêncio de introspecção, é logo interrompido pelo riso, pois o próprio português, caminhando pelo círculo da “tribo”, pede, com urgência, algum remédio, algo que possa ajudar o índio gripado.

Ressalta-se, ainda, a potência da presença da Bujarrona Road, que atua como Nau – é ela que nos conduz até o Brasil, em outro ponto da praça – e Forte – na cena final, quando, mais uma vez, nos levantamos e acompanhamos as personagens para outro canto. Poderia, talvez, ser mais bem usada, fazer-se mais presente.

Presente como o tom de deboche e as piadas toscas que tanto divertiam, como o churrasquinho servido ao final, que transparece um interesse da Trupe em criar e recriar relações, em dividir experiências, em partilhar as tantas histórias que a rua propicia. Porque lá, no Sol quente, naquele asfalto duro de escaldar, sem sombra e sem refresco, também participamos daquela passagem da história de São Vicente quando um grupo desorganizado de portugueses malucos, hereges, criminosos cai por aqui, para colonizar esta terra de ninguém.

Em Portugal era assim: escorregou, cai no Brasil; num Brasil desconhecido, de terreno gigantesco; universo estranho, quase que inimaginável. Foi também chamado “Paraíso”. Mas o apelido não pôde perdurar, porque em paraíso de cara-pálida, europeu não vira espeto.

Gyorgy Laszlo


 

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