“O que é bom para o lixo é bom para a poesia”*

Ampla e extremamente arborizada, matizada por verdes que colorem as gramas, as folhas das árvores, os nossos olhos. Assim se mostra a Praça Rafael Sapienza, localizada na Vila Madalena, bairro da zona oeste da cidade conhecido pelos seus bares de preços altos (isto é, inacessível às classes populares), locais que oferecem serviços “alternativos”, ateliês, pequenos e inúmeros outros espaços culturais e condomínios, onde vivem, em sua maioria, sujeitos de certa classe média alta. Ali, na tarde de um domingo solar, estivemos um pouco com o grande – e vivíssimo! – poeta Manoel de Barros.

Sentado sobre galhos e grossas raízes de árvore expostas, o público se misturava à paisagem da praça, como se estivéssemos todos em um dos poemas do homenageado. Formigas, folhas e terra já eram parte de nós, nosso corpo era um devir-mato. Expectativa em murmúrios de silêncio, desses tão altos “que os passarinhos ouvem de longe”, como o de Bernardo. E vozes em canto nos despertam: “hoje eu atingi o reino das imagens” – verso marcante da principal canção de Ruas de Barros, do paulistano Grupo Chão.

Bernardo, espécie de ermitão, é uma das entidades poéticas da obra de Manoel de Barros, assim como Andaleço, “desnome” deste andarilho – Homem do Saco para as crianças da estrada. Essas figuras tornam-se personagens do espetáculo, cuja proposta é a apresentação da vida e da obra do poeta mato-grossense, natural de Cuiabá (MT) e crescido em Corumbá (MS), a “capital do Pantanal”. Dividida em portos, em referência a momentos da vida do artista, a peça assume um caráter episódico e também épico, por conta da anunciação de cada uma dessas passagens que “interrompe”, algumas vezes, o diálogo de uma cena, como capítulos explicitados de uma obra.

A apropriação cênica da poesia de Manoel de Barros aponta para um trabalho de tratamento criativo dos versos em diferentes sentidos: eles surgem na forma de música, em falas de diálogos – expressando o exercício de diferentes possibilidades para o uso da palavra – e também em imagens. Neste último caso, parece residir a dimensão estética mais potente do espetáculo.

A elaboração dos delicados figurinos, em tons de bege e branco, e do cenário simples e funcional, habilmente marcado por um varal preso entre as árvores e que possibilita a abertura de uma “cortina” em momentos significativos, destacam-se nesta proposta visual. O cuidado com essa dimensão da obra também transparece na escolha dos acessórios e dos objetos de cena, que caracterizam as personagens e contribuem na criação imagética. Um longo pedaço de tecido azul se transforma em um rio, por exemplo. Assim, o uso dos tons claros em quase todas as peças do figurino e do cenário se mostra ainda mais interessante ao estimular o trabalho com outras cores, que surgem ressaltadas e com sentidos maximizados.

Uma das referências da pesquisa estética é o artista plástico brasileiro Arthur Bispo do Rosário. Este sergipano que passou grande parte de sua vida em um hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro criou uma extensa série de obras sob o signo da reutilização ou da ressignificação de objetos já inutilizados, jogados fora, tidos como lixo – “coisas apropriadas ao abandono”. A partir do que é desprezível, imprestável, sem serventia no contexto da lógica da sociedade de consumo, Bispo do Rosário, assim como Manoel de Barros, faz poesia. A referência é de extrema felicidade no que se refere aos aspectos éticos e estéticos de ambos os artistas. E poderia estar mais presente no espetáculo. A caracterização de Andaleço é exemplar da influência, com suas tiras de tecidos misturados por todo o corpo, que chega a evocar o Manto da Apresentação, de Rosário, mas parece ser caso isolado, ao menos no que se refere à plasticidade do trabalho. Quanto ao discurso, há uma certa tendência no espetáculo em considerar a loucura como um tipo de saber…

Essa atmosfera talvez seja eco da tentativa de se irmanar à busca do poeta pelo “criançamento das palavras”, como caminho para a criação. O exercício se evidencia na postura e na composição dos gestos dos atores que, em alguns momentos, flertam com um tom pueril. A interpretação é descontraída, despojada, sem virtuosismos – tem leveza e facilita a relação com público. Por outro lado, o modo como os atores compartilham os versos às vezes assume um tom recitativo, como se não estivessem experienciando o que dizem, como se a poesia morasse nas imagens criadas no exterior e no entorno dos artistas do grupo. De qualquer forma, a poesia agora também pode habitar a quem, passeando pela Praça Rafael Sapienza naquela tarde de domingo, encontrou-se com aquele que procurou por si mesmo a vida inteira e não se achou – pelo o que foi salvo (como versa o mato-grossense no poema Autorretrato falado).

*Esta e as outras citações desta leitura crítica foram retiradas da seguinte referência bibliográfica: BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.

[Texto originalmente escrito para a revista do Movimento de Teatro de Rua de São Paulo (MTR-SP) Arte e Resistência na Rua, em edição relativa à 6ª Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas.]

Daniela Landin

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