O inacabado enquanto estética popular*

O que fazer quando o calor racha e seca e não há sombra que acolha, quando se tem fome e o que não comer, quando se tem sede e o que não beber? Leonildo e Maria do Céu fazem poesia.

Mais dois deste enorme contingente de nordestinos que deixam para trás a dureza da terra rachada em busca de, na secura do asfalto, fazer da arte seu ganha pão, o casal chegou a São Paulo para participar de um “concurso de teatro” – assim se referiam à 6ª Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas. Interpretados pelos atores Aline Alencar e Marcelo de Castro, da Cia. Forrobodó de Teatro e Cultura Popular, de São José do Rio Preto, são também artistas populares, e, diante daquela roda que se abriu, cantaram músicas nordestinas e encenaram A chegada de Lampião no Inferno, cordel de José Pacheco.

A aparente confusão quanto ao caráter da Mostra poderia ser levada como um despropositado engano se não se misturasse a outros tantos divertidos “erros” e “falhas” que compuseram a apresentação. Era comum as duas personagens esquecerem as falas em partes da encenação do cordel, igualmente comum eram as piadas que se relacionavam ao fazer teatral e as troças entre os dois.

Na cena em que o Diabo arma seu exército para marchar contra Lampião, que, morto, chegara aos portões do Inferno, o casal fez uma série de brincadeiras. Numa delas, Leonildo nos contou que em breve uma “Diaba Moça” apareceria, esbanjando formosura. Maria surgiu e a entrada, que deveria ser triunfal, acabou por decepcioná-lo. Ele, sem titubear, interrompeu o curso da história e fez com que a cena se repetisse. Em seguida, à falta de atores, convocaram três homens do público para enfrentar o sertanejo; o casal, então, esperou que eles ficassem desconcertados, sem saber o que fazer, para, em seguida, lhes passar as marcações e as falas.

Um senhor ao meu lado, que se disse zabumbeiro, apontou para a falta de uma das baquetas da zabumba de Maria, que, por sinal, não se preocupava em cantar com rigor técnico. Durante as músicas, o vento ameaçou derrubar o cenário em cima de Leonildo; prontamente, Maria chamou alguém da produção da Mostra para segurar a cortina. Despertou-nos o riso, não apenas por ter deixado o rapaz sem graça, mas também por ter rompido as formalidades, compartilhando com o público os elementos que compõem o próprio espetáculo, que em trabalhos de um teatro hegemônico estariam geralmente camuflados.

O trabalho do grupo se volta para o estudo de manifestações populares: a escolha do tema, das personagens e das músicas evidencia esta preocupação. O caminho do artista popular é tortuoso, preenchido de dificuldades.  Uma de suas característica é a força para conseguir criar com pouco, força que faz do inacabado não um produto-mal-feito, mas uma experiência-em-construção, obra coletiva, em que trabalham tanto o artista, o corpo em que a experiência ganha voz, quanto o público, que a compreende por ser não apenas a quem ele mira, mas também sua origem, a quem o artista se volta: a experiência é o acúmulo das tantas histórias vividas e contadas que ele materializa artisticamente.

Ao que parece tais equívocos se apresentam como forma, ou seja, compõem o modo como o espetáculo se apresenta, o modo como é concebido por seus criadores. O inacabado cria fissuras que aproximam o público do espetáculo, fazendo da construção algo de coletivo, de riso em comunhão: ele se dá (e é preciso explicitar: um riso que nem de longe se assemelha ao escárnio) por se sentir representado por alguém que esta ali, à frente, sem a distância propiciada pelo palco; disposto não apenas a contar uma história, mas, em uma parceria com quem esteve presente, compartilhá-la.

* Texto originalmente escrito para a revista do Movimento de Teatro de Rua de São Paulo (MTR-SP) Arte e Resistência na Rua.

Gyorgy Laszlo

Ensaio sobre o desterro

No silêncio caótico desse cultivo inconsciente de palavras, transporto-me para aquelas ruas pobres e negras – cenário de desalento. Que pungentes cenas estariam protagonizando agora os arlequins de tristes figuras?

Antes de pegar o metrô rumo à estação Luz, li em redes sociais mensagens que desqualificavam os organizadores e participantes do “Churrascão da gente diferenciada – versão Cracolândia” por eles supostamente nem saberem ao certo onde fica a região que tem sido alvo de perversa operação policial, este braço do Estado – e não custa insistir: de evidente motivação higienista. Saindo da estação, me dei conta, vejam só, de que realmente não sabia como chegar à rua Helvétia, local da ação. Acostumada a errar pela cidade, pedi orientação a um taxista. “Ah, agora dá pra andar por ali, né?”, ele disse. E esbocei um sorriso sem jeito.

No caminho indicado, encontrei um rapaz e uma moça, cada um carregando um engradado de cerveja, igualmente perdidos. Eles, atuantes em prol dos direitos da criança e do adolescente em ONGs da região do Capão Redondo e de Interlagos, zona sul da cidade, e eu fomos orientadas por uma jovem que depois me contou estar trabalhando junto à Defensoria Pública, em exercício de escuta, registro e encaminhamento dos relatos de usuários de crack e moradores do entorno sobre, por exemplo, abusos cometidos por policiais. E enfim, chegamos.

As primeiras imagens gravadas na memória dão conta de pequenas aglomerações margeadas, de um lado, por velhos sobrados, com suas paredes gastas e pálidas e onde algumas pessoas assistiam à movimentação da janela do piso superior, e de outro, por um sem-número de cartazes colados em um cercado de arame. Neles, pude ler depois, dizeres em tintas coloridas: “o usuário deve ser tratado e não maltratado”, “limpar não é tratar”, “contra a política de higienização”, “usuário não é droga nem lixo!”. Avistei, no centro da rua, o padre Júlio Lancelotti e, mais à frente, uma barraquinha onde moradores da região formavam uma pequena fila para receber lanches com carne preparada na hora. Havia ainda os que faziam música, executada por um grupo que se abrigava em uma tenda improvisada, rodeada de muitos curiosos, o que impedia uma visão mais clara do que acontecia ali – guardo partes fragmentadas de instrumentos e de corpos em alegria de gestos. Todo um público, atravessado pela diferença de classe, que se olhava e se estranhava – e estranhava a si, imagino. Uma distinção clara de origem: gente da região e gente de fora – este último grupo que se vestia mais ou menos como eu.

Garota bastante expansiva, aos sorrisos, distribuía sua última invenção aos presentes, cantando “Ai, polícia, se você me pega/Assim você me mata”, em paródia que arrancou, ainda que à força, algum movimento de lábios.

E o que era garoa virou chuva grossa e, assim, espocaram os guarda-chuvas abertos – alguém pedia acolhida embaixo de um, outros se protegiam na barraca e houve os que preferiram caminhar sossegados, deixando-se encharcar tranquilamente.

Logo sou levada ao chamado “buraco”, sobre o qual apenas havia lido em textos que circulavam na Internet. O impacto é grande. Uma construção de dois andares absolutamente deteriorada, repleta de escombros, composta por pequenos “cômodos” destroçados e com o aspecto pós-guerra deixado pela invasão policial. No chão, misturados às pedras de concreto, pedaços de vidro, tecidos e objetos pouco identificáveis, que tendem a ser lidos pelos nossos olhos como sujeira ou lixo. Tudo úmido e revirado. Como se estivesse num museu de horrores, monumento em memória a uma dessas catástrofes que povoam a história – e que não costumam ser contadas do ponto de vista de seus vencidos –, observo a tudo espantada, cultivando certo silêncio. Há ainda outros visitantes estrangeiros, máquina fotográfica nas mãos ou pendurada no pescoço, a perscrutar o local, e um cheiro que não consigo discernir. Limito-me a permanecer em um dos primeiros espaços do comprido terreno e recuo, resolvo abandoná-lo – eu também. Na saída, ouço lá de dentro um rapaz pedir a outro: “tira uma foto minha?”.

Já do lado de fora, estou acompanhada por um grupo bem maior de pessoas. O número de presentes aumentou ou não havia me dado conta da quantidade de gente que resolveu se deslocar de suas casas, muitas em regiões bem distantes, para olhar de perto uma das tragédias que ajudamos a criar? Minha percepção é só embotamento. É quando uma voz, do andar de cima do prédio, espanta estas tentativas de elaborar a experiência. Grito de dor e sofrimento. Homem de longos dreads, empunhando bandeira do Brasil, cuja imagem foi veiculada em diversos espaços virtuais, proferia virulento discurso. Ao final, sacou a bandeira e disparou: propôs que cantássemos o hino nacional. Alguns de imediato apoiaram a idéia, mas o tímido canto foi logo abafado pelo burburinho e por discursos outros, igualmente inflamados, guturais. Em meio ao passa-passa de gente, flashs de câmeras fotográficas e encontros de conversas, um senhor mostra a todos um cartaz de papelão: “ACORDA SÃO PAULO”. E eu também o enquadro em uma imagem digital.

Mal percebo que o então orador deixou seu posto e, no lugar, está um “fora Kassab”, oportunamente pichado por um garoto que havia se empoleirado em uma das janelas do casarão. E oportunidade parece ser palavra adequada para o que depois vi.

 Image

(foto amadora ao paroxismo, tirada de celular gentilmente emprestado, com dedo aparecendo e tudo)

Hesito em levar adiante a escrita. Parece ato mesquinho em se tratando de situação tão delicada em suas feições de colapso social. No entanto, permanece o desejo de construção coletiva de “debate” (e talvez seja só mais um chavão inconsciente), o que acaba por vencer minha vergonha. Escrevo assim o primeiro texto deste espaço mais especificamente voltado ao que, aqui, tendemos a pensar como “teatralidade de rua” (!). Não se trata de uma tentativa de reduzir a ocupação e a ressignificação do espaço público por mulheres e homens à dimensão estética (ou esvaziando-as em chave esteticizante), mas, ao contrário, expandir a leitura destas ações, entendendo estética de forma indissociável de ética, e também de historicidade e politicidade.

A manifestante-performer da imagem movia a sua placa no sentido da seta, lembrando um orientador de trânsito. Irmanando-se a esta postura de ironia mordaz, dolorida, um rapaz ostentava outra placa, também pendurada ao pescoço, onde se lia “Visite o bairro decorado”, em referência às relações entre a Prefeitura e a especulação imobiliária – uma discussão sobre o processo de gentrificação da Luz pode ser encontrada neste vídeo: http://vimeo.com/32513151. O sarcasmo encontra outros sentidos na condição de visitante de boa parte das pessoas da classe média paulistana que nem ao menos sabia a localização exata daquele lugar da cidade estigmatizado como “Cracolândia”. Não à tôa, ao lado do “buraco”, um picho incitava um riso amargo: “Welcome to City Cracko” (e embaixo, “CACHIMBO CHEIO”). Desterritorializados estamos todos.

Daniela Landin

Corpo em confronto

No alto, sobre as cabeças dos que ali passavam, pendiam em cordas três caveiras de bois (ou vacas). A princípio, uma imagem destoante, sem nexo com todo o cenário que se desenhava: ao longo do Brique da Redenção, uma charmosa feira junto ao Parque Farroupilha, em Porto Alegre, viam-se bugigangas, artesanatos, crianças indígenas correndo e brincando ao lado dos rostos doloridos de seus familiares, palhaços, atores, músicos, placas em respeito ao 3º Festival de Teatro de Rua de Porto Alegre e muitos olhares distraídos. Em um momento, esquece-se das caveiras: numa mesa colocada, repentinamente, ao meio da rua, perto de onde balançavam, dois homens ensinam a brincar de Cinco Marias, um jogo popular em que se lança uma pedrinha ao alto, uma Maria, e se tenta apanhar as que estão na mesa – no caso específico, brincavam com três delas. Um som, então, irrompe de algum lugar ali próximo: uma música estranha cantada em inglês por uma voz masculina e, misturada a ela, em português, outro homem nos falando coisas que se confundiam com o barulho da rua; em um momento se ouvia: “existem duas grandes armas: a lágrima e a maquiagem”, frase aparentemente atribuída a Napoleão Bonaparte sobre as mulheres.

Em seguida, três pares de saltos altos, calças grudadas ou saias curtas e maquiagens por fazer destoam da multidão, caminhando esdruxulamente, perfazendo um círculo de curiosos debaixo das caveiras. A mesa, então, é tirada da rua e a atenção se volta para a estranheza do que se vê: três mulheres, de passos firmes, revezam-se ao microfone, apuram-se para a maquiagem, cortejam os homens que ali estão, rebolam e cantam desleixadamente, com emoção exacerbada. Um dos rapazes que brincava à mesa vai se embrenhando no círculo, distribuindo o programa da apresentação. Pede para votarmos em uma delas, a que mais gostamos: a última folha, a se destacar, dispõe de três quadradinhos e ao lado de cada um deles a descrição de uma das Marias em disputa: “cachos definidos, bunduda e sorridente”, “loira, esbelta e de olhos verdes” e “morena, cabelos lisos e olhar fulminante”.

Esta estranheza vai se intensificando à medida que as três passam a se descontrolar, o que é acompanhado, em consonância, com as peças de roupa que tiram ou arrancam umas das outras. Não mais se revezam, lutam pelo microfone; não mais cantam, gritam.

O ato de desnudar-se pode ser comparado, alegoricamente, ao de livrar-se das regras e normas culturais. A roupa incomoda, cola-se ao corpo e dificulta o movimento. Como se se libertassem do jugo da sociedade, como se caíssem num certo “estado primordial” em que a lei e as amarras da sociedade já não mais servem de empecilho, estar nu é estar livre. Na performance que se via, porém, esta “libertação” não pode se efetivar em sua totalidade: desnudando-se, trazem aos olhos de todos o colan que lhes molda o corpo, o silicone que lhes incha o sutiã. Os corpos que continuam presos a estas mesmas “regras e normas culturais”, não podem se libertar. E jamais poderiam. O que trazem à tona, então, é a crueldade deste tipo de organização social que molda e guia as pessoas (em especial as mulheres) para esta violência contra seus corpos, contra si mesmas.

É assim que a ausência de um figurino artístico evidenciando uma performance, ou cenário indicando uma apresentação, demonstram a abrangência do que se vê: os corpos que digladiam pelo microfone, que se estapeiam, que se xingam, que se sujam, que se esfregam e que se mostram, não se diferenciam do público e só se destacam pelo grotesco das cenas. Um grotesco que extrapola por estar naquele contexto específico, um domingo à tarde no parque, mas que, inserido em um outro contexto, programas televisivos, por exemplo, torna-se usual.

Formas de Brincar, esta apresentação pitoresca em que o corpo é tratado de forma violenta, do ERRO Grupo, explicita a mulher em sua condição de mero objeto de gozo. Como objeto, o corpo é dissociado do sujeito, ou seja, é um corpo que se comporta não mais como agente produtor, mas apenas como mercadoria – está, portanto, a ser consumido, disposto a tudo em nome deste consumo.

E o grande público que ali permanecia, de olhar estarrecido, debaixo das caveiras que aos poucos iam descendo, sabia gozar: muitos aplausos e risos; ao meu lado pude ouvir um rapaz dizer: “elas tem cara de cachorras, mesmo”. As cenas fortes divertiam. Mas também mostravam algo que escapa do mero riso: difícil era achar alguém que entrasse no jogo: como espectadores, brincavam e riam, como participantes, se acuavam. Era uma das Marias ir ao encontro de alguém, rebolar em sua frente, que o corpo antes agitado se retraía. Em um momento uma delas chamou um senhor para dançar – senhor que há pouco brincava e intervia nas demais apresentações – que logo recusou, envergonhado, como se não quisesse participar daquele tipo específico de brincadeira.

O bom senso, sempre extrapolado por vozes desafinadas e gestos caricaturais, encabulava (ao ponto daquele mesmo rapaz aconselhar, em tom jocoso, a uma conhecida ao seu lado, precaver-se com a faculdade de artes cênicas para não acabar “fazendo isso na rua”). E não poderia ser diferente.

A vida, como “uma experiência histórica que se tem com e no corpo”*, se embrutece, torna-se matéria descartável à medida que se incorpora a mercadoria como modelo das relações humanas, como agente constitutivo desta troca de experiências. Não apenas como “aquilo que está à venda”, mas como bem-a-se-consumir, a mercadoria é forma de controle de corpos e indivíduos. No caso específico da mulher, mistifica-a ao passo em que a vulgariza.

E isto numa época em que o corpo ganhou lugar de destaque nas lutas pelas liberdades: em um século se viu mulheres queimarem sutiãs nas ruas, o movimento gay surgir e ganhar força, os hippies e beatniks abandonarem um mundo regrado e taxativo. O corpo, que para o engajado pensador alemão Herbert Marcuse em seu Eros e Civilização, revoltou-se contra a máquina, num ato desesperado por se livrar das amarras de uma sociedade mecânica, cuja eficiência e racionalidade descartavam o prazer, se vê novamente preso. Porém, agora, aprisiona-se nas amarras de uma beleza descartável, no imperativo do gozo. E assim, devemos, como Marcuse, nos perguntar: como falar sobre “repressão”, aprisionamento de corpos, quando homens e mulheres vivem a época de maior liberdade sexual?

Sem esmiuçar a questão, ou seja, sem explicá-la, traduzi-la de forma explícita, Formas de Brincar permite ao público rir. É neste riso que se pode perceber a crueldade a que o corpo é submetido.

* Maria Izilda S. de Matos em Corpo – Âncora de Emoções: trajetórias, desafios e perspectivas.

Gyorgy Laszlo

Paraíso Ou Terra-de-ninguém – papagaios e sabiás no gorjeio da indigestão

O Brasil era a terra do exílio; vasto presídio com que se amedrontavam os heréticos e os relapsos, todos os passíveis do morra per ello* da sombria justiça daqueles tempos. (Euclides da Cunha – Os Sertões)

* condenação à morte no exílio.

Uma vez que deus é brasileiro e que sabiá aqui canta mais bonito, esta terra, de riquezas naturais quase ilimitadas, de paisagens tão diferentes e estonteantes, de povo cordial e simpático, cativante e rebolador, pôde ser chamada Paraíso. O apelido veio desde cedo. Num dos primeiros relatos portugueses, Pero Vaz de Caminha, encantado, descreve ao rei de Portugal uma terra de riquezas infinitas habitada por pardos inocentes. A carta simboliza muito do que esta nova terra iria se transformar: das belezas; do choque da civilização frente ao novo que se prostra nu, sem cobrir suas vergonhas; das promessas de riquezas; das novas almas para serem acolhidas nos longos e aconchegantes (e sufocantes) braços da Salvação. É também símbolo da política de favores que tanto marca esta terra de “ideias fora do lugar”: lá no fim das tantas páginas, Caminha pede a el-rei que liberte do exílio seu genro.

Assim, já na carta de descobrimento, podemos ver ressaltadas as tantas contradições do processo de colonização brasileiro. Contradições estas que permeiam Terra Papagalli, peça livre-inspirada no romance homônimo-de-mesmo-nome de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, encenada pela Trupe Olho da Rua, um grupo de teatro com papel importante de resistência na baixada santista, numa das ruas da singela e bonita Cidade Tiradentes.

O espetáculo traz, com humor escrachado, muitas destas questões tão caras à nossa história, ao lançar luz a um tal de Cosme Fernandes, ou Bacharel da Cananeia, homem desconhecido de nosso passado, expulso de Portugal e exilado no Brasil, que, junto a heróis, aventureiros, hereges, loucos, ratos e doenças, compôs as grandiosas embarcações de Cabral; embarcações encenadas, magistralmente, pela Kombi Bujarrona Road – automóvel, camarim e um quase ator da Trupe. Acresce à corja de personagens, outros dois passantes, negros, que se integraram à peça: “Josefina”, que numa das conversas do final da apresentação, ouvi de alguém ser moradora de rua, cujo nome fictício foi criado na hora, como estratégia para absorvê-la no elenco, e um bêbado que ali passava, com seu saquinho de pão e o discurso de que sua família lhe esperava à porta de casa.

A rua, então, estava pronta, e todos nós participamos deste Brasil em nascimento.

Cosme Fernandes, expulso de seu país natal por “comer a rosca” da mulher que amava (rosca que Josefina distribuiu às crianças sentadas), junto com o grupo de expatriados, é largado nas praias de São Vicente – ressaltando a preocupação da Trupe em buscar e reescrever a região de origem e espaço principal de atuação. Descobre, ali, um povo diferente em tudo; ou quase: o índio, de cor diferente, hábito diferente, cultura diferente, traz incorporado em seu modo de vida aquilo que a peça diz a todo momento: “quem não come, é comido”. E nos embates que se seguem, índios e brancos vão se percebendo, se conhecendo, fitando o semblante a se digerir.

Comendo e sendo comido, Cosme Fernandes segue sonhando em retornar à Europa, reencontrar a mulher que ama, ser tido como rei, escravizar tantos índios quanto pudesse, dominar esta terra. Ali todo mundo come e é comido, e não poderia ser diferente – a rua é este espaço de conflito, de estranheza e imprevisibilidade: os atores tendo de comer o bêbado que adentrava a cena com seu saquinho de pão e também sendo comidos por ele e por Josefina, que nos roubavam a atenção com suas entradas engraçadas e reveladoras… E neste embate entre atores e atores anônimos, os dois negros se juntaram aos índios e brancos, formando a miscelânea que são as raízes desta nossa terra de sabiás e papagaios. Miscelânea confusa, encrostada de violência e vitupério. Nos mostra, a peça, o quão tortuosa é esta mistura. E não podemos deixar de rir.

Em uma das cenas, a construção da imagem do escambo, escambo torto em que o índio deve dar sua riqueza em troca de nada, ou quase, o “pardo inocente” se revolta e pede mais. Inicia-se um embate, um toma-lá-dá-cá esdrúxulo, de gesto caricatural, que só termina quando o português, nervoso, lhe promete mais: todos em volta sentimos, então, o espirro lançado à face indígena – os atores faziam questão de nos colocar como parte da tribo. O silêncio que se segue, silêncio de introspecção, é logo interrompido pelo riso, pois o próprio português, caminhando pelo círculo da “tribo”, pede, com urgência, algum remédio, algo que possa ajudar o índio gripado.

Ressalta-se, ainda, a potência da presença da Bujarrona Road, que atua como Nau – é ela que nos conduz até o Brasil, em outro ponto da praça – e Forte – na cena final, quando, mais uma vez, nos levantamos e acompanhamos as personagens para outro canto. Poderia, talvez, ser mais bem usada, fazer-se mais presente.

Presente como o tom de deboche e as piadas toscas que tanto divertiam, como o churrasquinho servido ao final, que transparece um interesse da Trupe em criar e recriar relações, em dividir experiências, em partilhar as tantas histórias que a rua propicia. Porque lá, no Sol quente, naquele asfalto duro de escaldar, sem sombra e sem refresco, também participamos daquela passagem da história de São Vicente quando um grupo desorganizado de portugueses malucos, hereges, criminosos cai por aqui, para colonizar esta terra de ninguém.

Em Portugal era assim: escorregou, cai no Brasil; num Brasil desconhecido, de terreno gigantesco; universo estranho, quase que inimaginável. Foi também chamado “Paraíso”. Mas o apelido não pôde perdurar, porque em paraíso de cara-pálida, europeu não vira espeto.

Gyorgy Laszlo


 

Fado tropical – devora-me ou devoro-te

Praça 65, Avenida dos Metalúrgicos. Certa aglomeração: gente de teatro, mas também muitas crianças que, imaginei, em minhas conjecturas de estrangeira, chegaram ali vindas do parquinho de diversões, por onde eu tinha acabado de passar, ou das casas do entorno. No caminho entre o Centro Cultural Arte em Construção (sede do grupo Pombas Urbanas) e o local da apresentação, duas delas perguntaram, do alto da varanda de um sobrado: “Ei, onde vai ser o teatro?”. Parecem reconhecer de imediato quem é ou não do bairro. Faz sol forte no final da tarde de sábado na Cidade Tiradentes, no extremo leste da cidade de São Paulo.

Olho por todos os cantos, mergulhada no fascínio pelas cores, luzes, barulhos, enfim, pelo fluxo de vida que transborda das ruas, dos mercados, dos botecos. A beleza cotidiana de um bairro que, aos meus olhos incautos, é beleza extra-ordinária. Passo a notar que alguns senhores se protegem do sol embaixo do toldo de um pequeno bar, enquanto outras pessoas buscam a sombra produzida pela fachada de uma residência. De repente, algo irrompe no espaço. Atores vestidos com roupas grossas e compridas, de gosto duvidoso, à moda antiga e caricatural, passam a fazer algum estardalhaço. Chamam a atenção, rasgam a atmosfera de boa sociabilidade preservada até então.

Barulhentos – é o início da festa! –, com gestos afetados, dão início a um prólogo de impacto – o horror de um linchamento público é encenado à base de temperos da bufonaria, ou seja, a partir de humor ácido e politicamente incorreto. Uma festa grotesca, portanto, da qual somos convidados e, sobretudo, bem-vindos participantes. O espaço de representação está agora tomado por figuras perversas que, em seu show macabro, incitam o público a açoitar, com bolinhas de papel, o condenado, encapuzado ao centro. Ao lado, a presença de uma Kombi traz os índices que faltavam para completarmos o contexto e o sub-texto: caravela motorizada, o veículo ostenta uma bandeira com a Cruz de Cristo, símbolo presente nos navios que partiam para expedições em busca de territórios a serem conquistados. Atordoada, constato: fomos catapultados para o século XVI em uma de suas dimensões mais tétricas. E é português o sotaque de vítimas e algozes.

 

Oh, musa do meu fado,
Oh, minha mãe gentil,
Te deixo consternado
No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata!
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou.


Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!

 

O linchado da vez é um certo Cosme Fernandes (quem?), um infeliz que é condenado ao exílio, junto com outros criminosos da corte como ladrões, hereges, malucos, marginais e todo tipo de bárbaro, isto é, um sem-número de transgressores da lógica vigente, numa espécie de Nau dos Loucos, mas sob a marca portuguesa, e comandada por um tal Pedro Álvares Cabral. Por meio da trajetória de Cosme Fernandes, de quem tão pouco se sabe, entramos em contato com uma das histórias do nosso país que, como boa parte do que é interessante e revelador, não está nos livros de História. O espetáculo Terra Papagalli, baseado em livro homônimo dos jornalistas e escritores José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, é uma miscelânea de relato oficial, ficção e farsa que contém o deboche e o despojamento já enunciados no subtítulo da obra que o inspira: “narração para preguiçosos leitores da luxuriosa, irada, soberba, invejável, cobiçada e gulosa história do primeiro rei do Brasil”.

 

“Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro). Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”

A personagem, como todas as outras, é caracterizada pelo tom burlesco, com ênfase para as contradições e ambigüidades. Enquanto se entrega aos prazeres da comida e do sexo e escraviza os indígenas – uma de suas façanhas é a de vender 800 nativos de uma só vez –, carrega sempre o retrato de sua amada, a portuguesa de quem comeu a… rosca, no início do espetáculo. Esta cena é significativa para pensarmos a estética e o discurso do grupo. Uma atriz, vestida com trajes tipicamente portugueses, segura uma rosquinha de polvinho nas mãos e a oferece às personagens masculinas, enlouquecidas de desejo, e ao público que, depois, de fato devora uma porção delas (distribuídas pelos artistas do grupo).

 

Com avencas na caatinga,
Alecrins no canavial,
Licores na moringa:
Um vinho tropical.
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo…

“Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto,
De tal maneira que, depois de feito,
Desencontrado, eu mesmo me contesto
.”

 

A noção de antropofagia parece figurar dentre as preocupações dos artistas da companhia que, no entanto, fixam-se apenas em uma das etapas do ritual, o canibalismo, ou a devoração do outro como traço constitutivo da nossa cultura. Nesse sentido, a figura de Cosme Fernandes é exemplar. Tem melhor sorte que os outros desterrados porque soube perceber um conjunto de lógicas que rege as práticas dos habitantes desta Pindorama, elaborando as “regras para bem viver”, sendo a principal delas, espécie de síntese de toda uma “ética”, a que diz “nesta terra de fomes tantas e lei tão pouca, quem não come é comido”. Cosme Fernandes não só formulou uma “teoria político-filosófica” para mais facilmente governar os gentios, como a colocou em prática, levando a cabo, ao menos até certo momento, o seu reinado na Terra dos Papagaios.

 

Guitarras e sanfonas,
Jasmins, coqueiros, fontes,
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo…


Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um império colonial!*

Um dos aspectos mais interessantes dessa antropofagia encenada está no compartilhamento com o público, que participa dos processos de devoração do outro, dando ao espetáculo um caráter de proximidade e relação. A apresentação na Praça 65 se pautou por esta característica, com destaque marcante para a intervenção de “Josefina”, como foi batizada pelos atores a mulher que, desde o começo, fazia-se presente, acabando por se tornar parte do elenco, uma personagem. Havia outra pessoa, um senhor também aparentemente embriagado – ao que consta, de nome Ramos –, que, assim como Josefina, foi inserido em diversos momentos em que havia um coro ou como “figurante” do espetáculo. No entanto, eles sempre reivindicavam mais espaço, fazendo com que os artistas assumissem, muitas vezes, um papel “regulador” dessas intervenções. Sem pretender adotar um olhar inquisidor, parecido com aquele dos portugueses do século XVI, o caso parece nos fazer pensar a respeito das possibilidades da relação entre os fazedores de teatro de rua e as outras pessoas que integram o chamado espaço público. Afinal, os atores, após a apresentação, partem para outras expedições. O “nativo” permanece.

Na sequência de Terra Papagalli, da Trupe Olho da Rua, grupo de significativo trabalho de teatro de rua e que resiste há 8 anos na cidade de Santos, o Bando La Trupe, do Rio Grande do Norte, iniciou seu espetáculo. Enquanto Ramos, estirado ao chão, recuperava-se de uma possível baixa de pressão, Josefina estava lá, dançando com a atriz Patrícia Caetano, de Alice e Severino, espetáculo que passava a ser apresentado aos moradores de Cidade Tiradentes.

Ao caminhar para o ponto de ônibus, detive meu olhar aos vários pequenos bares que povoam o bairro e bateu aquela vontade de parar em um deles, sentar na mesa, pedir uma cerveja ou tomar um café. Como só havia estado por ali durante algumas horas da noite, em dias poucos da semana, para uma oficina de crítica ministrada pelo jornalista (e ex-Pombas Urbanas) Valmir Santos, e da qual estes textos sobre o Terra Papagalli são frutos, o desejo de retornar à luz do dia, passear pelas ruas e praças, e pensar sobre os possíveis nesta cidade ainda mora aqui comigo.

 

*Trechos da música Fado tropical, de Chico Buarque e Ruy Guerra, parte da criação dos compositores voltada para a oposição à ditadura civil-militar que existiu no Brasil de 1964 a 1985.

Daniela Landin