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O inacabado enquanto estética popular*

O que fazer quando o calor racha e seca e não há sombra que acolha, quando se tem fome e o que não comer, quando se tem sede e o que não beber? Leonildo e Maria do Céu fazem poesia.

Mais dois deste enorme contingente de nordestinos que deixam para trás a dureza da terra rachada em busca de, na secura do asfalto, fazer da arte seu ganha pão, o casal chegou a São Paulo para participar de um “concurso de teatro” – assim se referiam à 6ª Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas. Interpretados pelos atores Aline Alencar e Marcelo de Castro, da Cia. Forrobodó de Teatro e Cultura Popular, de São José do Rio Preto, são também artistas populares, e, diante daquela roda que se abriu, cantaram músicas nordestinas e encenaram A chegada de Lampião no Inferno, cordel de José Pacheco.

A aparente confusão quanto ao caráter da Mostra poderia ser levada como um despropositado engano se não se misturasse a outros tantos divertidos “erros” e “falhas” que compuseram a apresentação. Era comum as duas personagens esquecerem as falas em partes da encenação do cordel, igualmente comum eram as piadas que se relacionavam ao fazer teatral e as troças entre os dois.

Na cena em que o Diabo arma seu exército para marchar contra Lampião, que, morto, chegara aos portões do Inferno, o casal fez uma série de brincadeiras. Numa delas, Leonildo nos contou que em breve uma “Diaba Moça” apareceria, esbanjando formosura. Maria surgiu e a entrada, que deveria ser triunfal, acabou por decepcioná-lo. Ele, sem titubear, interrompeu o curso da história e fez com que a cena se repetisse. Em seguida, à falta de atores, convocaram três homens do público para enfrentar o sertanejo; o casal, então, esperou que eles ficassem desconcertados, sem saber o que fazer, para, em seguida, lhes passar as marcações e as falas.

Um senhor ao meu lado, que se disse zabumbeiro, apontou para a falta de uma das baquetas da zabumba de Maria, que, por sinal, não se preocupava em cantar com rigor técnico. Durante as músicas, o vento ameaçou derrubar o cenário em cima de Leonildo; prontamente, Maria chamou alguém da produção da Mostra para segurar a cortina. Despertou-nos o riso, não apenas por ter deixado o rapaz sem graça, mas também por ter rompido as formalidades, compartilhando com o público os elementos que compõem o próprio espetáculo, que em trabalhos de um teatro hegemônico estariam geralmente camuflados.

O trabalho do grupo se volta para o estudo de manifestações populares: a escolha do tema, das personagens e das músicas evidencia esta preocupação. O caminho do artista popular é tortuoso, preenchido de dificuldades.  Uma de suas característica é a força para conseguir criar com pouco, força que faz do inacabado não um produto-mal-feito, mas uma experiência-em-construção, obra coletiva, em que trabalham tanto o artista, o corpo em que a experiência ganha voz, quanto o público, que a compreende por ser não apenas a quem ele mira, mas também sua origem, a quem o artista se volta: a experiência é o acúmulo das tantas histórias vividas e contadas que ele materializa artisticamente.

Ao que parece tais equívocos se apresentam como forma, ou seja, compõem o modo como o espetáculo se apresenta, o modo como é concebido por seus criadores. O inacabado cria fissuras que aproximam o público do espetáculo, fazendo da construção algo de coletivo, de riso em comunhão: ele se dá (e é preciso explicitar: um riso que nem de longe se assemelha ao escárnio) por se sentir representado por alguém que esta ali, à frente, sem a distância propiciada pelo palco; disposto não apenas a contar uma história, mas, em uma parceria com quem esteve presente, compartilhá-la.

* Texto originalmente escrito para a revista do Movimento de Teatro de Rua de São Paulo (MTR-SP) Arte e Resistência na Rua.

Gyorgy Laszlo