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Corpo em confronto

No alto, sobre as cabeças dos que ali passavam, pendiam em cordas três caveiras de bois (ou vacas). A princípio, uma imagem destoante, sem nexo com todo o cenário que se desenhava: ao longo do Brique da Redenção, uma charmosa feira junto ao Parque Farroupilha, em Porto Alegre, viam-se bugigangas, artesanatos, crianças indígenas correndo e brincando ao lado dos rostos doloridos de seus familiares, palhaços, atores, músicos, placas em respeito ao 3º Festival de Teatro de Rua de Porto Alegre e muitos olhares distraídos. Em um momento, esquece-se das caveiras: numa mesa colocada, repentinamente, ao meio da rua, perto de onde balançavam, dois homens ensinam a brincar de Cinco Marias, um jogo popular em que se lança uma pedrinha ao alto, uma Maria, e se tenta apanhar as que estão na mesa – no caso específico, brincavam com três delas. Um som, então, irrompe de algum lugar ali próximo: uma música estranha cantada em inglês por uma voz masculina e, misturada a ela, em português, outro homem nos falando coisas que se confundiam com o barulho da rua; em um momento se ouvia: “existem duas grandes armas: a lágrima e a maquiagem”, frase aparentemente atribuída a Napoleão Bonaparte sobre as mulheres.

Em seguida, três pares de saltos altos, calças grudadas ou saias curtas e maquiagens por fazer destoam da multidão, caminhando esdruxulamente, perfazendo um círculo de curiosos debaixo das caveiras. A mesa, então, é tirada da rua e a atenção se volta para a estranheza do que se vê: três mulheres, de passos firmes, revezam-se ao microfone, apuram-se para a maquiagem, cortejam os homens que ali estão, rebolam e cantam desleixadamente, com emoção exacerbada. Um dos rapazes que brincava à mesa vai se embrenhando no círculo, distribuindo o programa da apresentação. Pede para votarmos em uma delas, a que mais gostamos: a última folha, a se destacar, dispõe de três quadradinhos e ao lado de cada um deles a descrição de uma das Marias em disputa: “cachos definidos, bunduda e sorridente”, “loira, esbelta e de olhos verdes” e “morena, cabelos lisos e olhar fulminante”.

Esta estranheza vai se intensificando à medida que as três passam a se descontrolar, o que é acompanhado, em consonância, com as peças de roupa que tiram ou arrancam umas das outras. Não mais se revezam, lutam pelo microfone; não mais cantam, gritam.

O ato de desnudar-se pode ser comparado, alegoricamente, ao de livrar-se das regras e normas culturais. A roupa incomoda, cola-se ao corpo e dificulta o movimento. Como se se libertassem do jugo da sociedade, como se caíssem num certo “estado primordial” em que a lei e as amarras da sociedade já não mais servem de empecilho, estar nu é estar livre. Na performance que se via, porém, esta “libertação” não pode se efetivar em sua totalidade: desnudando-se, trazem aos olhos de todos o colan que lhes molda o corpo, o silicone que lhes incha o sutiã. Os corpos que continuam presos a estas mesmas “regras e normas culturais”, não podem se libertar. E jamais poderiam. O que trazem à tona, então, é a crueldade deste tipo de organização social que molda e guia as pessoas (em especial as mulheres) para esta violência contra seus corpos, contra si mesmas.

É assim que a ausência de um figurino artístico evidenciando uma performance, ou cenário indicando uma apresentação, demonstram a abrangência do que se vê: os corpos que digladiam pelo microfone, que se estapeiam, que se xingam, que se sujam, que se esfregam e que se mostram, não se diferenciam do público e só se destacam pelo grotesco das cenas. Um grotesco que extrapola por estar naquele contexto específico, um domingo à tarde no parque, mas que, inserido em um outro contexto, programas televisivos, por exemplo, torna-se usual.

Formas de Brincar, esta apresentação pitoresca em que o corpo é tratado de forma violenta, do ERRO Grupo, explicita a mulher em sua condição de mero objeto de gozo. Como objeto, o corpo é dissociado do sujeito, ou seja, é um corpo que se comporta não mais como agente produtor, mas apenas como mercadoria – está, portanto, a ser consumido, disposto a tudo em nome deste consumo.

E o grande público que ali permanecia, de olhar estarrecido, debaixo das caveiras que aos poucos iam descendo, sabia gozar: muitos aplausos e risos; ao meu lado pude ouvir um rapaz dizer: “elas tem cara de cachorras, mesmo”. As cenas fortes divertiam. Mas também mostravam algo que escapa do mero riso: difícil era achar alguém que entrasse no jogo: como espectadores, brincavam e riam, como participantes, se acuavam. Era uma das Marias ir ao encontro de alguém, rebolar em sua frente, que o corpo antes agitado se retraía. Em um momento uma delas chamou um senhor para dançar – senhor que há pouco brincava e intervia nas demais apresentações – que logo recusou, envergonhado, como se não quisesse participar daquele tipo específico de brincadeira.

O bom senso, sempre extrapolado por vozes desafinadas e gestos caricaturais, encabulava (ao ponto daquele mesmo rapaz aconselhar, em tom jocoso, a uma conhecida ao seu lado, precaver-se com a faculdade de artes cênicas para não acabar “fazendo isso na rua”). E não poderia ser diferente.

A vida, como “uma experiência histórica que se tem com e no corpo”*, se embrutece, torna-se matéria descartável à medida que se incorpora a mercadoria como modelo das relações humanas, como agente constitutivo desta troca de experiências. Não apenas como “aquilo que está à venda”, mas como bem-a-se-consumir, a mercadoria é forma de controle de corpos e indivíduos. No caso específico da mulher, mistifica-a ao passo em que a vulgariza.

E isto numa época em que o corpo ganhou lugar de destaque nas lutas pelas liberdades: em um século se viu mulheres queimarem sutiãs nas ruas, o movimento gay surgir e ganhar força, os hippies e beatniks abandonarem um mundo regrado e taxativo. O corpo, que para o engajado pensador alemão Herbert Marcuse em seu Eros e Civilização, revoltou-se contra a máquina, num ato desesperado por se livrar das amarras de uma sociedade mecânica, cuja eficiência e racionalidade descartavam o prazer, se vê novamente preso. Porém, agora, aprisiona-se nas amarras de uma beleza descartável, no imperativo do gozo. E assim, devemos, como Marcuse, nos perguntar: como falar sobre “repressão”, aprisionamento de corpos, quando homens e mulheres vivem a época de maior liberdade sexual?

Sem esmiuçar a questão, ou seja, sem explicá-la, traduzi-la de forma explícita, Formas de Brincar permite ao público rir. É neste riso que se pode perceber a crueldade a que o corpo é submetido.

* Maria Izilda S. de Matos em Corpo – Âncora de Emoções: trajetórias, desafios e perspectivas.

Gyorgy Laszlo

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