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Das margens

Às margens daquela cidade de mulheres e homens fortes, os montes conhecidos por suas favelas – planta sobrevivente da caatinga. Usado estrategicamente pelo exército da então recente república, donde canhões desfilavam tiros devastadores. A escassez da vida, a dureza da morte e a luta: assim são os sertanejos. Piedade, mesmo que falsa, aos seus e violência há quem lhe é diferente: assim são os poderosos. Rememora-se a gente de Canudos por ter guerreado, desesperada e astuciosamente, para viver na terra seca e por ter enfrentado o assustador combate pela vida de peito erguido. Ironicamente, os mesmos soldados passaram a habitar os morros cariocas, de onde guerreariam, agora, contra a fome e as injustiças ofertadas pela civilização, a quem outrora eles serviram.

A palhaçada acontecia na Rua General Câmara, situada no bairro Paquetá, zona central de Santos. Era o Grupo de Circo e Teatro Rosa dos Ventos apresentando seu divertidíssimo Saltimbembe Mambembancos na 3ª Mostra de Teatro Olho da Rua. Ao fundo, alguns prédios em construção. Trata-se do Conjunto Habitacional Vanguarda I, uma conquista da ACC, Associação de Cortiços do Centro. Os prédios, a nova moradia dessas tantas pessoas, é a materialização de uma luta infindável contra o descaso e o abandono dos governantes. A vitória é ainda mais bonita por serem estes mesmos associados os idealizadores e construtores desta edificação.

O cortejo, previsto para começar ao término do espetáculo, teve início quando o Sol já caía pelo horizonte, colorindo de rosa o céu entardecido.  Idealizado pela Cia Antropofágica, a intervenção urbana Karroça Antropofágica inspira-se nos longos percursos traçados pelos tropeiros, transportadores de mercadoria em épocas anteriores às estradas de ferro. Eram também transmissores de notícias, narradores que mantinham as aldeias e vilarejos abastecidos com as histórias de outras margens.

Atravessando o bairro santista, de poucos carros, até então, e uma infinidade de prédios e terrenos abandonados, seguíamos a Karroça com músicas e palavras de ordem. O mote, como não poderia deixar de ser, tendo em vista a região, foi a luta dos pobres pela sobrevivência, luta esta inserida num contexto de classe. Ouvimos e cantamos a sorte dos moradores de Canudos, de Eldorado dos Carajás e de Pinheirinho, sentindo o sangue derramado por estas tantas pessoas pulsar em nossas veias.

A passagem por tais atrocidades, da maneira Antropofágica, nos coloca diante de outra forma de encarar nossa história, rejeitando aquela tida como oficial, que apela para a distância dos “fatos”, mantendo-se fria. Uma história que pulsa independente dos anos decorridos, vivificadora do antes, transformando-o num agora que, por força dos sobreviventes e daqueles que se sensibilizam, não pode metamorfosear-se em passado; as lutas destes tantos mortos, derrotados em vida, mantêm-se inacabadas, à espera de uma resolução. Revisitá-las, assim, é revisitarmo-nos e trazê-las à tona é fazer com que as experiências destes corpos inertes, sem sepultura, sobrevivam em nós, seus herdeiros.

Às margens daquela rodovia, mato. Onde se escondiam os manifestantes que, por sorte, conseguiram escapar dos tiros e bombas disparados pelos soldados da pátria democrática. A manifestação se dava por não haverem terras que lhe fossem de direito, apesar de nelas terem trabalhado e erigido suas vidas. Descobre-se, em contato com os sobreviventes do massacre ocorrido em Eldorado dos Carajás, município do Pará, a mentira da história oficial, que em seu relato afirma ter sido 21 o número de assassinados pela civilização: “Apagaram as luzes para desmontar o que tinham feito, para limparem a via, jogavam corpos e mais corpos em caçambas de caminhão, que tomavam rumos diferentes”*.

Junto à música, algumas personagens interpretadas pelos artistas da companhia relacionavam-se conosco. Assim fiquei sabendo, pelo bêbado de cartola – figura que se destacava não apenas pela altura do ator Rafael Gracioli, mas também por sua figura ébria, provocadora – que o ex-governador paulistano Mario Covas fora enterrado no Cemitério do Paquetá. “Aqui só tem gente importante. Você não. Vai com deus, Mario Covas!”. Para junto do todo-poderoso, o bêbado mandava outros representantes da tirania como Floriano Peixoto, Prudente de Morais, Geraldo Alckmin, Naji Nahas etc – nomes não faltaram para esta “homenagem”.

A história da civilização ocidental, desde os mitos judaico-cristãos até os acontecimentos que, agora, presenciamos, é a violenta história de ruínas edificando ruínas. Massacres, sociedades inteiras dizimadas, devastações. Podemos encarar tantas tiranias e violências de modos diversos: a vilania do Opressor contra o Oprimido, a maldade sem limite daqueles que detêm o poder, a humanidade em seu instinto cego pela crueldade… Talvez o modo que mais incomode seja aquele que nos coloca irmanados com a violência, como o inimigo que nos destrói e a quem almejamos derrubar, sem nos darmos conta de que é nele que buscamos aconchego. Violentados, violentamos. A violência policial, que tanto nos assusta, é também nossa – talvez o lado mais perverso dela. Enquanto passamos indeléveis pela fome nos corpos dos miseráveis, trabalhadores espancam trabalhadores e “homens de bem” sobrevivem à custa de seus subalternos. O educador Paulo Freire dizia que a educação contra a qual ele lutou a vida inteira era aquela que transformava oprimidos em potenciais opressores, educação em vigor, que transforma sujeitos em indivíduos, células incomunicáveis, à parte de seus semelhantes.

Às margens daquele bairro, montes. A manhã nem bem surgia, sonolenta, por trás deles, quando um barulho estridente fez saltar os olhos daqueles que ainda não despertaram para a dureza do dia. Violência, abuso de autoridade, desrespeito, tiros de borracha, bombas, bens roubados, crianças e idosos machucados, mulheres estupradas e cachorros, dezenas deles, mortos em nome da prosperidade da civilização. Cerca de 6000 moradores de Pinheirinho, em São José dos Campos, tiveram seus direitos vilipendiados por um direito mais forte: o direito de quem governa de favorecer quem lhe apoia.

Ao fim do cortejo, nas proximidades do Mercado Municipal de Santos, quando já nos preparávamos para assistir ao Homem Cavalo & Sociedade Anônima da Cia Estável de Teatro, passando por um grupo de senhoras negras para lá de seus 60 anos, ouvi de uma delas, sobre uma reportagem da TV: “Uma mulher enrolada na bandeira do Brasil disse: ‘Eles bateram na gente demais, humilharam a gente demais’. E comecei a chorar. Esta é a realidade da vida”.

De modo que se realmente há uma oposição entre civilização e barbárie, como muitos afirmam, em que aqueles taxam estes de representantes de um estado de liberdade perversa, luta infindável para a satisfação de seus impulsos mais violentos, talvez se faça urgente repensarmos nossa escolha (falo de nós, filhos do capital e do deus criador), tomarmos o caminho inverso desse que, desde tempos imemoriais, seguimos. Sejamos bárbaros.

Às margens daquelas cidades, os montes. Do alto deles, fiscais vieram procurar ao menos dez homens justos – a justeza medida pela subserviência. Eram conhecidos, os moradores, por serem contrários às leis do poderoso. Há uma lei que protege quem de longe chega, mas ali a vida funcionava de outras formas, por outros caminhos, como é comum aos focos de resistência. Erguidas pela força de trabalho de homens brutos e iletrados, Sodoma e Gomorra foram dizimadas num entardecer. Houve apenas um sobrevivente, Ló, que traiu seu povo em nome de deus.

* Brasil de Fato, 15/04/2011.

Gyorgy Laszlo

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