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Versículo de Rua

Uma voz ordenou que Abraão matasse seu amado filho, Isaac, seu mais precioso bem, em louvor à Divindade. O filósofo cristão Soren Kierkegaard, no livro Temor e Tremor, explicita a tortuosidade desta situação: sob o ponto de vista religioso, o ato poderia ser identificado como um sacrifício, uma prova de amor ao deus; porém, se se olhasse a partir da sociedade, no contexto das relações entre cidadãos, Abraão não seria diferente de um assassino. O impasse, complexo, talvez pudesse ser resumido numa pergunta: o que faríamos caso um ser divino nos mandasse cometer uma ação vil? Para Kierkegaard parece não haver dúvidas: um criminoso deve ser julgado por suas ações, pois só são elas que fazem sentido à luz da comunidade, do mundo material. Como se sabe, Deus não permitiu que Abraão cometesse o assassinato, enviando um anjo que lhe arrancou a arma, poupando-lhe, assim, de uma perda irreparável.

Este mesmo impasse ganha ar de comicidade na história de Ditinho Curadô, peça apresentada na Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas pelo grupo Nativos Terra Rasgada, de Sorocaba.

Humilde homem do campo, pai de dois filhos, num determinado dia ouve alguém lhe chamar. Ao perceber que não se trata de uma voz reconhecida, descobre possuir um dom: Ditinho tem a graça de estar em ligação direta com os santos, podendo realizar milagres. Cada uma das fitas da bandeira do Divino Espírito Santo hasteada em sua morada lhe colocaria em contato com um diferente: a vermelha com São José; a azul com São Pedro e a preta com São Benedito. Os santos lhe transmitiriam ensinamentos, que, por sua vez, deveriam ser repassados a quem viesse lhe pedir ajuda – assemelhando-se a uma espécie de callcenter divino.

A comparação parece fazer sentido quando se percebe que o gerenciamento do céu não é tão diferente do daqui: pragmático, burocrático e confuso. São Pedro, por exemplo, zanga-se por uma “chamada teste”, realizada por Ditinho para ter certeza de que a voz celestial que ouvia não era engano; cada santo, outra indicação desta semelhança, responsabiliza-se por um tipo específico de milagre, fazendo com que Ditinho seja transferido de departamento em departamento (com direito a musiquinha de espera!) para ser atendido pelo responsável: a fim de descobrir a cura para a galinha doente da vizinha, por exemplo, ele fala com três santos diferentes.

Estas semelhanças se acentuam à medida que Ditinho recebe os pacientes (e não clientes!) em sua morada: não se vê a realização de milagres, ou anjos que desçam à terra para privá-los de seus sofrimentos; este “dom da cura”, ao que parece, converte-se em arranjos práticos, naquilo que comumente se chama de jeitinho: ao vizinho que perdera o emprego na fábrica, oferece que cuide de sua plantação e que os lucros sejam divididos igualitariamente em 40% para cada (e os outros 20%? – pergunta o compadre. Vai para o santo, ora); à comadre, que mora em área sujeita a inundações, o Curador arranja um puxadinho em seu quintal… O discurso do grupo é explícito: os moradores desta região rural recorrem aos santos por não serem efetivamente representados pelo Estado.

Mas e Mariazinha? Como ajudá-la a ir para a escola quando o transporte público é ineficaz? Posto como inacessível, o Estado ignora as dores e as reivindicações dos pobres, dos necessitados, e só se faz presente quando o interesse de quem detém o poder está em jogo. Para ter sua voz ouvida, Ditinho não apela a São Judas Tadeu, santo das causas impossíveis, nem ele ajudaria. A ligação para o deputado só é atendida por se tratar de ano eleitoral. O político o ajuda com a condição de que o Curador apoie a candidatura de Fernando, mais um dos corruptos que mira a vaga de prefeito. Apoio este aprovado pelos santos.

Na festa que organizam para angariar votos, Ditinho e o Deputado se responsabilizam pelo palanque; com o microfone à mão, dirigem-se ao público com efusivas palavras de apoio ao candidato. Seria mais um comício banal, de conteúdo esvaziado, se uma mulher ali presente não rompesse o círculo e exigisse o microfone. Com ele à mão, gritou sua pobreza e rompeu os sorrisos do público, que até então se divertia com as peripécias de Ditinho. Em seu protesto, ela exigiu respeito pelos moradores de rua e coragem para enfrentar as dificuldades que as circunstâncias nos colocam, explicitando que estamos sempre, invariavelmente, tendo que escolher qual a nossa posição frente ao mundo e aos outros.

Ditinho, por exemplo, escolheu envolver-se com os poderosos, que lhe sugaram os favores e acabaram por deixá-lo sozinho, abandonado pelos amigos, esposa e filhos, que já não o viam mais como um companheiro; outro dos que ali estavam escolheu tomar o microfone, já encerrado o espetáculo, e nos colocar, como outrora a moradora de rua, diante de nossas (in)decisões. O grupo escolheu contar esta história na rua, espaço público de discussão e enfrentamento, ao contrário de Abraão, que, tido como quase divino, rumou às montanhas para realizar o sacrifício – ali, não haveria possibilidade de debate.

* Texto originalmente escrito para a revista do Movimento de Teatro de Rua de São Paulo (MTR-SP) Arte e Resistência na Rua.

Gyorgy Laszlo