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Fado tropical – devora-me ou devoro-te

Praça 65, Avenida dos Metalúrgicos. Certa aglomeração: gente de teatro, mas também muitas crianças que, imaginei, em minhas conjecturas de estrangeira, chegaram ali vindas do parquinho de diversões, por onde eu tinha acabado de passar, ou das casas do entorno. No caminho entre o Centro Cultural Arte em Construção (sede do grupo Pombas Urbanas) e o local da apresentação, duas delas perguntaram, do alto da varanda de um sobrado: “Ei, onde vai ser o teatro?”. Parecem reconhecer de imediato quem é ou não do bairro. Faz sol forte no final da tarde de sábado na Cidade Tiradentes, no extremo leste da cidade de São Paulo.

Olho por todos os cantos, mergulhada no fascínio pelas cores, luzes, barulhos, enfim, pelo fluxo de vida que transborda das ruas, dos mercados, dos botecos. A beleza cotidiana de um bairro que, aos meus olhos incautos, é beleza extra-ordinária. Passo a notar que alguns senhores se protegem do sol embaixo do toldo de um pequeno bar, enquanto outras pessoas buscam a sombra produzida pela fachada de uma residência. De repente, algo irrompe no espaço. Atores vestidos com roupas grossas e compridas, de gosto duvidoso, à moda antiga e caricatural, passam a fazer algum estardalhaço. Chamam a atenção, rasgam a atmosfera de boa sociabilidade preservada até então.

Barulhentos – é o início da festa! –, com gestos afetados, dão início a um prólogo de impacto – o horror de um linchamento público é encenado à base de temperos da bufonaria, ou seja, a partir de humor ácido e politicamente incorreto. Uma festa grotesca, portanto, da qual somos convidados e, sobretudo, bem-vindos participantes. O espaço de representação está agora tomado por figuras perversas que, em seu show macabro, incitam o público a açoitar, com bolinhas de papel, o condenado, encapuzado ao centro. Ao lado, a presença de uma Kombi traz os índices que faltavam para completarmos o contexto e o sub-texto: caravela motorizada, o veículo ostenta uma bandeira com a Cruz de Cristo, símbolo presente nos navios que partiam para expedições em busca de territórios a serem conquistados. Atordoada, constato: fomos catapultados para o século XVI em uma de suas dimensões mais tétricas. E é português o sotaque de vítimas e algozes.

 

Oh, musa do meu fado,
Oh, minha mãe gentil,
Te deixo consternado
No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata!
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou.


Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!

 

O linchado da vez é um certo Cosme Fernandes (quem?), um infeliz que é condenado ao exílio, junto com outros criminosos da corte como ladrões, hereges, malucos, marginais e todo tipo de bárbaro, isto é, um sem-número de transgressores da lógica vigente, numa espécie de Nau dos Loucos, mas sob a marca portuguesa, e comandada por um tal Pedro Álvares Cabral. Por meio da trajetória de Cosme Fernandes, de quem tão pouco se sabe, entramos em contato com uma das histórias do nosso país que, como boa parte do que é interessante e revelador, não está nos livros de História. O espetáculo Terra Papagalli, baseado em livro homônimo dos jornalistas e escritores José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, é uma miscelânea de relato oficial, ficção e farsa que contém o deboche e o despojamento já enunciados no subtítulo da obra que o inspira: “narração para preguiçosos leitores da luxuriosa, irada, soberba, invejável, cobiçada e gulosa história do primeiro rei do Brasil”.

 

“Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro). Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”

A personagem, como todas as outras, é caracterizada pelo tom burlesco, com ênfase para as contradições e ambigüidades. Enquanto se entrega aos prazeres da comida e do sexo e escraviza os indígenas – uma de suas façanhas é a de vender 800 nativos de uma só vez –, carrega sempre o retrato de sua amada, a portuguesa de quem comeu a… rosca, no início do espetáculo. Esta cena é significativa para pensarmos a estética e o discurso do grupo. Uma atriz, vestida com trajes tipicamente portugueses, segura uma rosquinha de polvinho nas mãos e a oferece às personagens masculinas, enlouquecidas de desejo, e ao público que, depois, de fato devora uma porção delas (distribuídas pelos artistas do grupo).

 

Com avencas na caatinga,
Alecrins no canavial,
Licores na moringa:
Um vinho tropical.
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo…

“Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto,
De tal maneira que, depois de feito,
Desencontrado, eu mesmo me contesto
.”

 

A noção de antropofagia parece figurar dentre as preocupações dos artistas da companhia que, no entanto, fixam-se apenas em uma das etapas do ritual, o canibalismo, ou a devoração do outro como traço constitutivo da nossa cultura. Nesse sentido, a figura de Cosme Fernandes é exemplar. Tem melhor sorte que os outros desterrados porque soube perceber um conjunto de lógicas que rege as práticas dos habitantes desta Pindorama, elaborando as “regras para bem viver”, sendo a principal delas, espécie de síntese de toda uma “ética”, a que diz “nesta terra de fomes tantas e lei tão pouca, quem não come é comido”. Cosme Fernandes não só formulou uma “teoria político-filosófica” para mais facilmente governar os gentios, como a colocou em prática, levando a cabo, ao menos até certo momento, o seu reinado na Terra dos Papagaios.

 

Guitarras e sanfonas,
Jasmins, coqueiros, fontes,
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo…


Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um império colonial!*

Um dos aspectos mais interessantes dessa antropofagia encenada está no compartilhamento com o público, que participa dos processos de devoração do outro, dando ao espetáculo um caráter de proximidade e relação. A apresentação na Praça 65 se pautou por esta característica, com destaque marcante para a intervenção de “Josefina”, como foi batizada pelos atores a mulher que, desde o começo, fazia-se presente, acabando por se tornar parte do elenco, uma personagem. Havia outra pessoa, um senhor também aparentemente embriagado – ao que consta, de nome Ramos –, que, assim como Josefina, foi inserido em diversos momentos em que havia um coro ou como “figurante” do espetáculo. No entanto, eles sempre reivindicavam mais espaço, fazendo com que os artistas assumissem, muitas vezes, um papel “regulador” dessas intervenções. Sem pretender adotar um olhar inquisidor, parecido com aquele dos portugueses do século XVI, o caso parece nos fazer pensar a respeito das possibilidades da relação entre os fazedores de teatro de rua e as outras pessoas que integram o chamado espaço público. Afinal, os atores, após a apresentação, partem para outras expedições. O “nativo” permanece.

Na sequência de Terra Papagalli, da Trupe Olho da Rua, grupo de significativo trabalho de teatro de rua e que resiste há 8 anos na cidade de Santos, o Bando La Trupe, do Rio Grande do Norte, iniciou seu espetáculo. Enquanto Ramos, estirado ao chão, recuperava-se de uma possível baixa de pressão, Josefina estava lá, dançando com a atriz Patrícia Caetano, de Alice e Severino, espetáculo que passava a ser apresentado aos moradores de Cidade Tiradentes.

Ao caminhar para o ponto de ônibus, detive meu olhar aos vários pequenos bares que povoam o bairro e bateu aquela vontade de parar em um deles, sentar na mesa, pedir uma cerveja ou tomar um café. Como só havia estado por ali durante algumas horas da noite, em dias poucos da semana, para uma oficina de crítica ministrada pelo jornalista (e ex-Pombas Urbanas) Valmir Santos, e da qual estes textos sobre o Terra Papagalli são frutos, o desejo de retornar à luz do dia, passear pelas ruas e praças, e pensar sobre os possíveis nesta cidade ainda mora aqui comigo.

 

*Trechos da música Fado tropical, de Chico Buarque e Ruy Guerra, parte da criação dos compositores voltada para a oposição à ditadura civil-militar que existiu no Brasil de 1964 a 1985.

Daniela Landin

 

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