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A gente vive teatro p’ra libertar*

Um terreiro organizado com os indícios das oferendas às entidades. De um lado, a bandeira do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), do outro, a do estado de Pernambuco. Ao centro, em destaque, uma estrutura, ornamentada de máscaras, homenageava o Teatro Popular de Rua e o próprio grupo, o TEAMU & Companhia; na frente, colada ao público, a bandeira do Brasil. Passada a hora programada para o início do espetáculo, parte do aglomerado de pessoas que esperavam pela apresentação passa a se manifestar diante do atraso. Alguma ansiedade se instaura. Finalmente, um pequeno cortejo formado por três homens caracterizados de brincantes, caras pintadas, começa a soar na Praça do Patriarca, Centro de São Paulo.

Chegam festeiros, belos em sua singeleza, presença plena e sincera de artistas populares que buscam o encontro. Um deles, dançando com uma burrinha feita de madeira e tecido, compõe uma imagem docemente divertida. Já no espaço de representação, o terreiro político, iniciam a conversa com o público e a apresentação, em tom de ensaio aberto. Nesse momento da escrita, cedo à tentação de procurar o significado da palavra “ensaio” no dicionário e descubro, entre outras possibilidades, “experiência”, “estudo”, “tentativa”, “treino”. O espetáculo dos pernambucanos do TEAMU traz a oportunidade de pensarmos o trabalho teatral, sobretudo, o popular, de rua, sob a égide desses sentidos.

Antes de qualquer coisa, já esclarecem o mal entendido – é a primeira cena. Explicam que não houve atraso: o espetáculo começou pontualmente às 18 horas, como estava previsto, quando iniciaram o processo de maquiagem e caracterização, na rua mesmo, mas longe dos olhos do público, que esperava sentado, confortavelmente, no lugar convencionado, em frente ao espaço onde o cenário havia sido montado. Um dos atores chega a perguntar a um produtor da Mostra se foi isso mesmo que aconteceu, ele confirma. “Vamos, então, re-começar”, anuncia o brincante.

Inspirados pela fábula do Bumba-Meu-Boi pernambucano (desenvolvido pelo mestre Antonio Pereira no início do século XX), os artistas do Êta vida reinventam a história popular para discutir temas como moradia, trabalho e o próprio teatro de rua na perspectiva do oprimido, aquele que está à margem dos bens materiais e simbólicos. Um dos bordões dos artistas é “não há evolução social sem revolução cultural”. No espetáculo, Mateus – “não o da Bíblia, o do Boi” – foge para São Paulo. Catirina, grávida, vai atrás dele e é rejeitada; é, então, obrigada a buscar algum lugar, mesmo que precário, para morar na capital paulista. Uma trajetória como a de muitos nordestinos que migram de seus estados de origem na busca por uma vida melhor, uma história como muitas que povoam e caracterizam a própria história da cidade de São Paulo.

A narrativa é pontuada por inúmeras rupturas e descontinuidades, como brincadeiras com vinhetas relativas a comerciais televisivos, sátiras de todo tipo – “São Paulo é conservador, né? Votou no Serra…” –, comentários bem humorados sobre pessoas que assistiam à apresentação, sendo que, muitas vezes, as quebras ocorrem por “erros” dos próprios artistas. Sem qualquer tentativa de esconder possíveis “falhas”, confusões no texto ou na música, comunicam a imperfeição e o inacabamento como traços de um trabalho muito amparado na relação que o grupo estabelece com o público.

As canções executadas ao vivo e cantadas no microfone refletem de forma marcante o discurso e os posicionamentos dos atores. Canções a respeito do fazer artístico no espaço público, onde todos compõem e participam do espetáculo (“vocês acham que estão assistindo, mas estão também atuando”), do teatro popular e seus significados (“Eles fizeram teatro pra dominar/A gente faz teatro pra libertar/Eles usaram o teatro pra dominar/A gente vive o teatro pra libertar”) e que prestam homenagem aos artistas de rua, mas principalmente ao Movimento de Teatro Popular de Pernambuco. Com isso, os brincantes demonstram a percepção de quem sabe de onde fala e de onde vem: o nome do grupo, TEAMU, refere-se a Mustardinha, bairro da cidade do Recife, onde se localiza a sede desta companhia que existe há quase 30 anos.

A prática dos artistas do TEAMU remete à militância do educador Paulo Freire – a origem pernambucana é outra bonita proximidade –, no envolvimento profundo com os movimentos sociais populares, com os quais devemos aprender e aos quais temos também o direito de ensinar, numa relação político-pedagógica. Os brincantes que passaram pelo centro de São Paulo naquele mês de novembro evocaram um dos mais belos pensamentos freireanos, expresso de forma sucinta em uma das canções: a libertação se realiza, não no sentido de efetuar algo no outro, mas no de libertarmos uns aos outros em comunhão.

* Texto originalmente escrito para a revista do Movimento de Teatro de Rua de São Paulo (MTR-SP) Arte e Resistência na Rua, em edição relativa à 5ª Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas.

Daniela Landin

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